Perda auditiva e quedas são geralmente tratadas como assuntos de consultórios diferentes. Uma vai para o fonoaudiólogo. A outra vai para o ortopedista, o geriatra, às vezes para o pronto-socorro. Os estudos publicados nos últimos dois anos vêm mostrando que essa separação faz bem menos sentido do que parecia.
A revisão técnica deste texto é de Fabio Horsth Catão (CRFa 22368), fonoaudiólogo, engenheiro pela UNESP e mestre em Engenharia e Acústica pelo INP Grenoble, na França, diretor da Auditif.
Perda auditiva e quedas: o tamanho do problema
Quedas são a principal causa de lesões não fatais entre pessoas mais velhas, e a taxa de mortalidade por queda entre quem tem 75 anos ou mais mais do que dobrou nas últimas duas décadas. Não é um detalhe de saúde pública: em levantamentos populacionais recentes, mais de um quarto das pessoas acima de 65 anos que vivem em casa relataram ter caído no ano anterior, e uma em cada dez dessas quedas resultou em lesão.
O dado que costuma surpreender é a força da associação entre perda auditiva e quedas. Pessoas com perda auditiva têm cerca de 2,4 vezes mais chance de cair do que pessoas com audição preservada da mesma faixa etária. Esse número aparece de forma consistente em diferentes populações e continua relevante mesmo depois que os pesquisadores ajustam os cálculos para idade, uso de medicamentos e outras condições de saúde.
Uma análise de 427 comunidades de Rhode Island e Massachusetts encontrou taxas médias de 28% de idosos que caíram no último ano, com variação enorme entre bairros. Onde havia mais relato de dificuldade auditiva, a taxa de quedas também subia. Correlação não prova causa, mas o padrão que liga perda auditiva e quedas se repete com uma regularidade que chamou a atenção da comunidade científica.
O que a audição tem a ver com ficar de pé
A explicação mais óbvia é anatômica. A cóclea, responsável pela audição, e o vestíbulo, responsável pelo equilíbrio, ficam dentro da mesma estrutura da orelha interna, o labirinto. Eles compartilham irrigação sanguínea, líquidos e vizinhança, por isso uma alteração que danifica uma parte tem chance razoável de afetar a outra.
No entanto, os pesquisadores identificaram pelo menos três outros mecanismos, e eles talvez expliquem mais do que a proximidade anatômica.
Um deles é a perda de pistas espaciais. A gente se orienta no ambiente usando som muito mais do que percebe. O barulho do carro que se aproxima pela esquerda, o eco de um corredor, o som dos próprios passos mudando quando o piso muda de textura. Quem ouve menos recebe menos dessas informações e navega o espaço com margem de segurança menor.
Outro mecanismo tem a ver com esforço de escuta. Quando a audição está comprometida, o cérebro precisa trabalhar mais para decodificar a fala. Essa energia sai de algum lugar, e um dos lugares é justamente o controle postural. Andar e conversar ao mesmo tempo, algo trivial para a maioria das pessoas, passa a exigir atenção dividida.
Há ainda um caminho indireto, que passa pela fragilidade: quem tem perda auditiva apresenta risco maior de desenvolvê-la, e fragilidade é um fator de risco clássico para quedas.
“O paralelo que costumo usar em consulta é o de dirigir com o para-brisa embaçado. A pessoa não deixa de enxergar, mas passa a dirigir mais devagar, mais tensa, com menos tempo de reação. É exatamente o que acontece com o corpo de quem está processando um ambiente sonoro incompleto: ele reage mais tarde e com menos precisão.”
Fabio Catão, fonoaudiólogo (CRFa 22368)
O estudo que testou a hipótese na prática
Correlação é uma coisa. Testar se a intervenção muda o desfecho é outra bem diferente, e foi isso que o estudo ACHIEVE fez.
O desenho é sólido: um ensaio clínico randomizado de três anos, com 977 participantes entre 70 e 84 anos, recrutados em quatro centros nos Estados Unidos. Todos tinham perda auditiva bilateral de leve a moderada, não tratada, e nenhum apresentava comprometimento cognitivo significativo no início. Metade recebeu intervenção auditiva completa. A outra metade recebeu um programa de educação em saúde, sem componente auditivo.
Ao final dos três anos, o grupo que recebeu a intervenção auditiva apresentou redução de 27% no número médio de quedas em comparação com o grupo controle. Os resultados foram publicados na The Lancet Public Health como análise secundária do estudo ACHIEVE.
São vinte e sete por cento em uma população que cai com frequência e na qual uma fratura de quadril costuma significar perda definitiva de autonomia, o que dá a esse número um peso bem concreto.
Usar às vezes e usar sempre dão resultados diferentes
Um segundo estudo, de desenho transversal, olhou para uma pergunta que os fonoaudiólogos escutam toda semana: faz diferença usar o aparelho o dia inteiro ou só quando tem visita?
Faz diferença, e a margem entre um caso e outro é considerável. Na análise inicial, quem usava aparelho auditivo tinha aproximadamente 50% menos chance de ter caído em comparação com quem não usava. Depois de ajustar os cálculos para idade, sexo, grau da perda auditiva e uso de medicamentos, a vantagem se manteve. Mas o achado mais interessante apareceu quando os pesquisadores separaram quem usava de forma consistente de quem usava esporadicamente: entre os usuários consistentes, as chances de queda caíram para cerca de um terço das de quem não usava, e as chances de estar classificado como de alto risco de queda caíram na mesma proporção.
Os autores chamam isso de possível relação dose-resposta, o que na prática significa que quanto mais constante o uso, maior o benefício. Deixar o aparelho na gaveta durante a semana e colocá-lo só no almoço de domingo produz um resultado bem mais modesto.
O custo de adiar
Existe um intervalo característico entre o momento em que a audição começa a mudar e o momento em que a pessoa procura ajuda. Ele costuma ser longo, medido em anos, e a razão raramente é falta de informação. É negação, é achar que ainda dá para levar, é não querer ser visto usando dispositivo.
Esse intervalo tem custo, e ele não se limita ao risco de queda. Além disso, é no mesmo período que a pessoa começa a participar menos de conversas em grupo, evita telefonema, deixa de ir ao almoço de família. O isolamento que nasce daí aparece hoje com destaque na literatura sobre saúde do cérebro.
Os estudos sobre quedas acrescentam a esse quadro uma dimensão física: além da conversa perdida no jantar, some também a margem de segurança para atravessar a própria casa. E enquanto o isolamento social ainda se reverte com o tempo, uma fratura de quadril aos 78 anos costuma marcar um antes e um depois na autonomia.
Os sinais que a família costuma perceber primeiro
Na prática de consultório, quem identifica o problema quase nunca é a própria pessoa. É a filha, o filho, o neto que mora junto. E os sinais raramente aparecem como “meu pai não está ouvindo bem”.
Aparecem assim: ele passou a segurar no móvel para se levantar da poltrona, mesmo sem dor no joelho. Ela anda mais devagar quando a luz do corredor está apagada. Ele parou de descer a escada sem apoio no corrimão, coisa que fazia até ano passado. Ela leva susto quando alguém chega por trás, porque não ouviu os passos. Ele aumentou o volume da televisão e, no mesmo período, tropeçou duas vezes no tapete da sala.
Esses episódios costumam ser lidos separadamente. O volume alto vira piada de família, o tropeço vira “descuido”. Quando aparecem juntos, num intervalo de alguns meses, merecem investigação conjunta.
Outro sinal frequente: a pessoa começa a evitar sair à noite. A justificativa costuma ser cansaço ou preguiça, mas por trás há uma sensação real de insegurança em ambientes com pouca luz, onde a audição precisaria compensar o que a visão não entrega.
Como reduzir o risco de queda na prática
O primeiro passo é medir. Sem audiometria não há como saber o grau, o tipo e o padrão da perda, e sem isso qualquer conduta vira chute. Por isso, o exame de audiometria costuma ser o ponto de partida: é rápido, indolor e feito em cabine acústica, justamente para eliminar a interferência de ruído externo e garantir precisão nos resultados.
Vale combinar com uma avaliação de equilíbrio quando já houve episódio de queda ou tontura. Como a orelha interna abriga as duas funções, investigar só uma delas pode deixar metade do quadro de fora.
Quando há indicação, os aparelhos auditivos entram como parte do cuidado, não como fim. Na prática, o que os estudos mostram é que o benefício vem do uso constante e bem ajustado, o que depende de acompanhamento e de retornos para ajuste fino, não apenas da compra do dispositivo.
Em paralelo, ajustes simples na casa reduzem risco de forma imediata:
- Retirar tapetes soltos, principalmente em corredores e no caminho até o banheiro
- Instalar barra de apoio no box e ao lado do vaso sanitário
- Melhorar a iluminação de corredores e escadas
- Deixar um interruptor ao alcance da cama
- Manter atividade física orientada, com foco em força de membros inferiores e treino de equilíbrio
“O ganho real aparece quando as duas frentes andam juntas. Ajustar a audição sem mexer na casa resolve pela metade. Reformar a casa sem tratar a audição também.”
Fabio Catão, diretor da Auditif
Perguntas Frequentes
Perda auditiva causa tontura?
Nem sempre, mas a associação é comum. Como audição e equilíbrio dividem a mesma estrutura na orelha interna, alterações que afetam uma função podem afetar a outra. Quando tontura e dificuldade para ouvir aparecem juntas, a investigação deve incluir as duas.
Aparelho auditivo melhora o equilíbrio?
Ele não trata diretamente o sistema vestibular, mas os estudos indicam redução no número de quedas entre usuários, com resultado melhor entre quem usa de forma consistente. A hipótese mais aceita é que a recuperação das pistas sonoras do ambiente e a redução do esforço de escuta liberam recursos que o corpo usa para se manter estável.
A partir de que idade fazer audiometria de rotina?
Não existe idade única. A recomendação prática é começar o acompanhamento periódico a partir dos 50 anos, e antes disso se houver exposição frequente a ruído, histórico familiar, zumbido, diabetes ou hipertensão. Em caso de dúvida, uma avaliação preventiva pode ser solicitada a qualquer momento.
Quem já caiu deve investigar a audição?
Sim. Depois de uma queda, a investigação costuma se concentrar em ossos, visão e medicamentos. No entanto, a audição raramente entra nessa lista — e os dados recentes sugerem que deveria.
Onde fazer o exame na região?
A Auditif atende em Mogi das Cruzes, Suzano e Guarulhos, com equipe e estrutura para audiometria e avaliação auditiva completa.
Um passo simples para começar
Se você reconheceu algum desses sinais em alguém da família, o caminho mais curto é agendar uma avaliação auditiva. É um exame rápido, e o resultado muda a conversa de “ele está ficando velho” para algo concreto e tratável. Preencha o formulário desta página com Nome, Telefone, E-mail e a Unidade de sua preferência — Mogi das Cruzes, Suzano ou Guarulhos — e a nossa equipe entra em contato para organizar o melhor horário.
Escrito por
Conteúdo produzido pela equipe da Auditif e revisado por Fabio Horsth Catão, fonoaudiólogo (CRFa 22368), engenheiro pela UNESP e mestre em Engenharia e Acústica pelo INP Grenoble (França). Diretor e sócio da Auditif, com mais de 20 anos de experiência em gestão, pesquisa e atuação clínica na área da audição. Atende nas unidades de Mogi das Cruzes, Suzano e Guarulhos.
